Este deve ser o post mais longo que eu já escrevi. É que eu tenho muita coisa pra contar. Bom, ainda bem que o Troy foi atualizando vocês da vida aqui. Estou costurando meus vestidos e ganhei um monte de retalhos da mãe do chefe dele, que estou animada para usar, e estou cozinhando com a minha batedeira nova, apesar da minha maior especialidade ultimamente ser queimar comida.
Na faculdade está tudo na mesma, ainda estou esperando o resultado da minha tese. Se passou um mês dos 4 a 6 de espera. Dá-lhe espera! Agora, a melhor notícia mesmo é que o departamento de imigração me autorizou a trabalhar em tempo integral, então eu não terei que viver a pão e água (até parece que era ruim!). De verdade, isso me ajuda porque eu paro de irritar a minha chefe com chatices de ser estrangeira.
Agora o melhor de tudo: minha viagem para o Pilbara. O Pilbara (pronúncia Pilbra, com o "r" enrolado) é um lugar meio estranho e muito bonito. É seco e mais seco e duro e doído, mas tudo isso só faz ser mais bonito ainda. Lá tem um monte de mineradoras de minério de ferro, e a minha empresa me mandou pra lá para trabalhar na área da Rio Tinto contando plantas. Mais especificamente, contando Acacia aptaneura (uma espácie de leguminosa) e grama. Muita grama pra contar.
Nem sei por onde começar. A gente foi pra lá de avião, alugou um carro e fomos para a "vila" dos mineradores. Lá tem tudo o que você pode precisar, tudo fornecido pela Rio Tinto. Comida muito boa no refeitório, a cerveja mais barata da Austrália (a partir das 6h30 da noite), academia, quadras, piscina, telefone, TV, mini-lojinha e essas coisas. A maioria dos mineradores trabalha 14 dias seguidos com 7 dias de descanso. Assim, a maioria das pessoas vai pra lá mas tem casa em Perth. Ah, e os turnos de trabalho são de 12 horas.
As pessoas são extremamente simpáticas, todo mundo quer conversar e como a vida se resume a trabalhar, comer e dormir, é muito, mas muito tranquilo. Todos os quartinhos são iguais, mas eu descobri depois que é só por fora. Tem quartos melhores que outros. Todos são tipo um container de navio adaptado pra ser uma casinha, o meu tinha 4 ou 5 quartos, e o banheiro era externo. No meu quarto tinha cama de solteiro, escrivaninha, frigobar e um armário pequeno. No meu não tinha TV, mas na maioria deles, tem.
A terra é vermelha e pegajosa. Tudo o que você tem fica vermelho. A minha pele ficou vermelha da terra, não tinha banho que resolvesse, porque você sai do banheiro todo cheio de vapor e lá fora tem terra vermelha de novo e vento pra grudar ela em você.
Minha rotina lá foi de acordar às 4h30 da manhã, com lua no céu e tudo, tomar café da manhã (no buffet tinha umas coisas estranhas; além de pão e o normal, tinha também ovos e bacon, que é normal, e aí tinha carne cozida, salsicha, feijão com molho de tomate, espaguete, batata e coisas assim... Eu era mais da torrada com manteiga, e às vezes bacon.
Todo mundo tem que trabalhar com roupas fluorescentes, então era muito difícil achar as minhas amigas no refeitório. Na foto, uma das manhãs amarelo-fluorescente.
Às 6h30 da manhã o calor já estava pegando, e com ele, as moscas. As moscas de lá são na verdade abelhas, mas elas não picam nem nada, elas só incomodam muito, que nem moscas. Eu queria tirar uma foto da minha mão coberta de moscas, mas nas duas vezes que eu tentei eu tive xilique de olhar a minha mão coberta de moscas.
Às 13h eu estava absolutamente derretendo. Com calça comprida, perneira, camisa grossa, boné de astronauta (pra não queimar o pescoço) e de bota com bico de aço, ficava meio quente. A gente estava, também, andando por volta de 10 ou 12 km por dia, e em um dos dias, eu e a Michelle sozinhas botamos 168 estacas no chão com marretas. Foto ilustra como dá pra ser delicada fazendo esse trabalho.
Contei muita grama, abri e fechei muita fita métrica, andei muito, bebi entre 9 e 12 litros de água por dia (dos quais só meio litro virava xixi) e vi muita, mas muita coisa legal. Nas fotos, tem pegada de canguru com o desenho do rabo no chão, tem lagartinho que eles chamam de dragão, que é a coisa mais fofa, e até fóssil de conha e "faca" de aborígenes, que a gente encontrou num sítio arqueológico. Na verdade, quase toda calha de rio por lá é um sítio arqueológico, então ninguém nem se preocupa muito com essas coisas.
Às 18h a gente estava de volta na vila, nós quatro imundas, e aí era hora do banho e jantar às 18h30 e aí, basicamente, cama. Teve uma noite que eu fui no bar com a Michelle e a gente conversou com o pessoal que trabalha lá direto e com os aborígenes. Ume deles me chamou de mulher branca (white fellow) e aí depois ele ficou constrangido, como se tivesse me ofendido. Achei engraçado o ridículo do politicamente correto.
Foi realmente uma experiência ímpar, e que vai virar par no mês que vem, porque eu vou pro mesmo lugar de novo. ENtre 11 e 20 de Novembro, que é pra passar mais calor ainda. O que o Troy disse é verdade: a temperatura de superfície lá chega a 60oC, e eu estou mais do que orgulhosa de não ter desmaiado nem arregado.
Aqui tem uma expressão pra quando a pessoa está de frescura: "harden up!"; ou seja, endurece! Estou virando casca grossa. E do jeito que a gente trabalha lá, eu também virei lixa grossa, comendo que nem pedreiro. E adorei a chance de viver lá, nem que só por um pouqinho. Estou gostando muito do meu trabalho.
E é melhor ainda quando eu volto para casa depois de uma semana e está tudo limpo e tem jantar pronto e flores e bilhetinhos... Ah, Troyzinho!
Beijos,
Mari